23 de mar de 2011

Breves apontamentos sobre a Doutrina da Igreja acerca do "Pecado Original"

Cardeal Christoph Schönborn
Arcebispo de Viena
(Resumo de Miguel Falcão)
No ano 2008, Edizioni Studio Domenicano (Bologna – Itália) publicou um pequeno livro
* com três ensaios acerca do pecado original – do psicanalista Albert Görres, do filósofo Robert Spaeman e do teólogo Christoph Schönborn; todos eles tinham participado num Congresso sobre o pecado original em Novembro de 1989, em Roma, sob a presidência do então Cardeal Joseph Ratzinger, onde foram apresentados os dois primeiros ensaios.
O terceiro ensaio – «Breves apontamentos sobre a doutrina da Igreja acerca do pecado original» (pp. 55-88) – é reelaboração de uma conferência dada em 1990 por Mons. Christoph Schönborn, secretário da comissão de redacção do Catecismo da Igreja Católica e actual Cardeal arcebispo de Viena.
Vamos procurar dar um resumo da sua exposição, com algumas chamadas de atenção entre parênteses. As citações entre aspas correspondem ao original.

A condição do homem na criação
O homem, como todo o universo, foi criado por Deus, pelo que manifesta a Sua sabedoria e bondade. (O homem é bom, como toda a criação; e é limitado, como toda a criatura; portanto, esta limitação não é o pecado original).
A Revelação afirma que o homem, além de ser bom, gozava de uma especial familiaridade com Deus – «a santidade e justiça originárias» (Trento), que é o estado de graça. «O homem, em razão do corpo, era mortal, mas por dom de Deus não estava sujeito ao poder da morte».
Adão não tinha nenhuma má inclinação (Gen 2, 25). A relação homem – mulher reflectia a mesma relação de harmonia com Deus. A terra era um jardim, e o trabalho era prazenteiro e consistia em cultivá-lo e cuidar dele.
«Esta quádrupla harmonia – com Deus, consigo próprio, com o próximo, com a terra – perdeu-se com o pecado original».
«Pela fé devemos supor que o género humano teve uma origem única e que, portanto, foi um acto livre dos nossos progenitores que provocou, para todos os homens e a sua descendência, as consequências do pecado original».
Pio XII, na sua primeira Encíclica (Summi Pontificatus, 20-X-1939), condenou a ideologia racista afirmando a solidariedade humana, baseada quer na comum origem e natureza, quer no sacrifício redentor de Cristo pela humanidade pecadora. Nesse sentido, recordava que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança (Gen 1, 26-27), e do primeiro casal tiveram origem todos os outros homens; e S. Paulo anunciara aos gregos que Deus fez, a partir dum só homem, todo o género humano, para habitar em toda a face da terra (Act 17, 26).
«Portanto, a fé exige que se aceite a hipótese de um verdadeiro primeiro casal».
A queda
Donde vem o mal? A esta antiga pergunta, a fé católica dá uma primeira resposta: o mal não pode estar inscrito na estrutura da criação, porque esta é boa, provém de Deus que é o Bem por excelência; o mal deriva da liberdade da criatura. Trata-se do mal moral. O que pertence à estrutura da criação é o mal físico, que consiste na imperfeição da criatura, chegando até à sua destruição ou morte.
A criatura livre, no uso da sua liberdade, (pode errar, devido à sua imperfeição no conhecimento ou na vontade; mas errar não é o mesmo que pecar). A tentativa de identificar o pecado original com a imperfeição humana falha, por colocar ao mesmo nível o mal físico e o mal moral. Essa tentativa pretende evitar o escândalo causado por um só acto livre ter consequências tão funestas para a humanidade de todos os tempos, sobretudo «encontrar-se numa condição de culpa, isto é, no pecado original».
«Certamente, isto é difícil de aceitar, mas não tem preço o que terá de pagar quem o rechace. A doutrina do pecado original está intimamente conexa com os princípios da fé cristã, de modo que não pode ser abandonada sem dano para todo o conjunto». Sem ela, não se entende o excesso de misericórdia d’Aquele que deu a sua vida em redenção de todos.
A proibição, segundo o Génesis, de comer da árvore da ciência do bem e do mal «indica simbolicamente o limite que o homem não deve ultrapassar, antes deve reconhecer com plena consciência e liberdade». O homem depende do Criador, está sujeito a uma moral (o bem e o mal) que reflecte a sabedoria e a bondade de Deus. Se viver assim, será sempre feliz com Deus; caso contrário, perderá para sempre a felicidade (morrerá!)
Tentado pelo demónio, Adão não quis obedecer a Deus, quis ser ele a estabelecer a sua moral (o bem e o mal), cortando a dependência com o Criador. O pecado original foi uma desobediência a Deus, como será todo o pecado sucessivo.
O pecado de Adão não foi o seu primeiro acto de liberdade (pecar não é liberdade, mas é manifestação da liberdade; os seus primeiros actos livres tinham sido aceitar a dependência de Deus. Tendo Adão originariamente só boas inclinações, a tentação não podia vir do seu interior; nem de Eva, que igualmente só tinha boas inclinações). A tentação veio do demónio, um Anjo que depois de criado quis ser independente de Deus e ficou a odiar a Deus e o homem. Quer o demónio, quer Adão, afastaram-se deliberadamente de Deus (pecado), usando mal a liberdade recebida do próprio Deus, em seu proveito. É o mistério da iniquidade.
«Por que Adão e Eva sucumbiram à tentação? Por egoísmo». «A fé e a experiência cristã vêem aí o núcleo do pecado original». A primeira tentação foi: «Coloca-te a ti antes de todos e de tudo, mas sobretudo antes de Deus». E o homem sucumbiu.
As consequências da desobediência de Adão e Eva são claras. A amizade com Deus(vida da graça), que era a fonte da grandeza do homem, perdeu-se inexoravelmente. Essa perda acarretou outras consequências lastimáveis: a fuga e afastamento de Deus (Gen 3, 8-10); o despertar da concupiscência da carne (Gen 3, 7), juntamente com outras más inclinações (Gen, 3, 12-13); o sofrimento e a morte passam a acompanhar a vida do homem (Gen 3, 17-19).
O pecado original
Por que é que o pecado de um só se tornou pecado de todos?» Como é que o acto de pecado do primeiro homem determinou para sempre que todos os homens tenham necessidade de salvação?
É o problema da transmissão do pecado original.
S. Paulo diz: «Por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte» (Rom 5, 12); e «pelo delito de um só, todos os homens incorreram na condenação, … pela desobediência de um só homem, muitos foram constituídos pecadores» (Rom 5, 18-19). «Estas palavras foram interpretadas pela Tradição da Igreja no sentido de que o pecado de Adão teve consequências para toda a humanidade».
«Não só estamos expostos à morte física – como 'pena' pela culpa original –, mas também à transmissão desta, 'que é morte da alma' (Trento). Nascemos todos no pecado e a transmissão dá-se 'por descendência, não por imitação' (Trento). Aquele 'na sua origem' é único em Adão, mas 'habita em cada um de nós e pertence a cada um de nós'. Não pode ser vencido por forças humanas, mas somente pelos méritos de Jesus Cristo».
«Mas o que é o pecado original? Em Adão é uma culpa pessoal, mas em todos os seus descendentes não é. Portanto, em relação aos nossos pecados pessoais, que para nós são culpas, o pecado original é 'pecado' somente em sentido análogo. O pecado original é, como todo o pecado, uma 'privação'. Mas, ao contrário dos pecados pessoais, cometidos por nós, não somos responsáveis pelo pecado original, antes 'herdamo-lo'. S. Tomás de Aquino chama-o peccatum naturae, uma privação que se perpetua na natureza humana. Todo o homem é gerado numa 'condição de imperfeição', porque recebe a sua natureza de homem neste estado, que é aquele em que foi deixado pelo pecado dos progenitores».
«Portanto, o pecado original é a privação da amizade com Deus, originariamente concedida ao homem, a privação da 'santidade e justiça, dom de Deus, que Adão perdeu não só para si próprio, mas para todos nós' (Trento)».
«Como pode o pecado pessoal de Adão tornar-se herança de toda a sua descendência?» S. Paulo compara a sua repercussão com Cristo: «Assim como, pela desobediência de um só homem, muitos foram constituídos pecadores, também pela obediência de um só, muitos serão constituídos justos» (Rom 5, 19).
S. Tomás de Aquino vê nesta unidade originária de todos os homens em Adão o mais importante elemento para compreender o pecado original: «Todos os homens, nascidos de Adão, podem ser considerados como um único ser enquanto estão reunidos na natureza que receberam do progenitor» (Summa Theologica). Deste modo, a culpa pessoal e a responsabilidade seriam só da cabeça, não dos membros do corpo, mas «o homem inteiro seria culpável».
A conexão dos mistérios da fé
«O mistério do pecado original encontra o seu verdadeiro lugar no conjunto de todos os mistérios da fé».
Somente à luz da revelação de Cristo se manifesta toda a gravidade do pecado original e das suas consequências. Por isso, não é de admirar que o Antigo Testamento não tenha tido ainda um conceito claro.
Foi preciso conhecer Cristo como fonte sobreabundante da graça e o preço do nosso resgate – Deus que aceita sofrer até à morte na Cruz –, para compreender a enormidade do pecado de Adão e as suas consequências na humanidade. A doutrina do pecado original é a outra face da Boa Nova de que Cristo é o Redentor de todos os homens. «O princípio da solidariedade, central na fé cristã, está intimamente conexo com a realidade da inclusão de todos os homens no pecado de Adão e na libertação de Cristo».
«Desde os tempos mais antigos, a Igreja vê no costume do batismo das crianças uma indicação clara do facto de que o pecado original existe». Orígenes explica: «as crianças são baptizadas para que assim sejam eliminadas as manchas do nascimento».
S. Agostinho deduz o pecado original a partir da universalidade da Redenção: Jesus é o Salvador de todos, também das crianças; todos têm necessidade da salvação. O Concílio de Trento fez seu este ensinamento «e ensina expressamente que o baptismo é administrado sempre para a remissão dos pecados; e nas crianças, que não têm culpa actual, para a remissão do pecado original».
Na discussão sobre a necessidade do baptismo, contra a qual se afirma que não deixa suficiente espaço à opção pessoal, com frequência não se presta atenção ao facto de que a decisão para fazer o bem, na luta de toda a vida entre o bem e o mal, requer a consagração a Cristo que dá o baptismo e que prepara o terreno onde pode crescer mais facilmente o bem e ser travado o mal.
Mas, como é possível que, naqueles que foram libertados do pecado original pelo baptismo, permaneça a inclinação para o mal?
Diz o Concílio de Trento: «Nos batizados, contudo, permanece a concupiscência ou fome que, deixada para o combate, não pode prejudicar aqueles que não consentem nela e, com a graça de Cristo, a combatem vigorosamente».
O nosso combate – é muito necessário redescobrir a dimensão da luta ascética na vida cristã –, embora dramático, serve para demonstrar que, ainda que pelo pecado de um só todos morreram, a misericórdia de Deus é muito mais abundante, até sobreabundante, pela obra de um só, Jesus Cristo, sobre todos (Rom 5, 15).

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